A PALAVRA ESCRITA

Testamento: o Velho e o Novo
Data: 30 de Setembro de 2009

Ao anunciar aos judeus que teria vindo dar cumprimento à lei, muitos entenderam que Jesus seria um novo Moisés, a se ocupar com obrigações, rituais, liturgias e ofertas. A idéia ainda está em bom número de igrejas, apesar de todo o esforço que se fez na Reforma, para que se entendesse que Cristo não tem qualquer interesse por tais coisas. São muitas as passagens em que o Senhor modifica a lei, mostrando que doravante, ela deixaria o campo das obrigações, para se tornar guia das consciências. É o caso do “não matarás”, transformado em “qualquer que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo”; o “não adulterarás”, em “se pensares com cobiça em alguém que não seja seu cônjuge, já cometeste adultério” etc. Jesus veio mudar os tempos estabelecendo com o povo de Deus uma Nova Aliança. Sua vida, seu martírio e sua glória estão narrados nos evangelhos. A história das primeiras comunidades, e seus principais personagens, no livro Atos. As instruções dos apóstolos, nas epístolas, principalmente nas cartas de Paulo, Pedro e João. É o Novo Testamento, com toda a sua força de liberdade e salvação, que deve ser, ou pelo menos deveria ser objeto da atenção de todos os que se dizem crentes.

A Reforma Protestante, o terceiro fato mais importante do milênio, foi um grande passo no sentido de que uma nova visão do Espírito de Deus pudesse ser apresentada à cristandade. Grande esforço e sofrimento tiveram os pais protestantes, que tudo fizeram para que se pudesse bem compreender, o espírito de liberdade que Cristo viera trazer dos céus. Mas o homem, na sua natural dificuldade de entender as coisas celestiais, logo permitiu que os rumos do movimento fossem distorcidos. E, as conseqüências, chegaram aos nossos dias. No meio religioso, é muito comum se estabelecer alguns ditos que, com o tempo, transformaram-se em verdadeiras regras. No movimento protestante, não foi diferente. Um desses chavões que andam de boca em boca, é o de afirmar ser a Bíblia a palavra de Deus. Parece até heresia que alguém diga que as coisas não são bem assim. Mas, se atentarmo-nos para as próprias Escrituras, vamos ver que são elas mesmas que dizem que não é mesmo assim.

Paulo, o apóstolo dos gentios, foi o mais preparado dos servos de Cristo. Ele, ao contrário dos outros apóstolos, havia sido instruído nas escolas judaicas e tinha profundo conhecimento das leis e costumes religiosos do seu tempo. E, foi por zelo, que permitiu a perseguição dos cristãos e da igreja nascente, até que o próprio Jesus o fizesse parar, na conhecida aparição de Damasco. Não se quer com isso medir o valor dos servos do Senhor. Cada um tem o seu galardão. E, certamente, o universo das coisas espirituais é muito vasto, havendo nele espaço para a simplicidade de coração, mas também lugar para as almas que desejam aprofundar-se nas coisas celestiais. Paulo descobriu em Cristo o cumprimento dos profetas e a personificação da Boa Nova. Ele descobriu em Jesus uma doutrina espiritual, que chamava de “meu evangelho”, para a qual, convém atentarmo-nos, para não nos perder nos tortuosos caminhos desse tempo. Paulo diz para não olharmos para o Antigo Testamento.

No movimento evangélico não é nada fácil identificar a doutrina de Paulo, princípio do verdadeiro protestantismo. A liberdade conquistada pela Reforma foi gloriosa, não há dúvidas. Quantos não foram mortos, torturados e perseguidos, por causa desse Jesus de quem tanto falamos? São muitos. Alguns conhecidos, outros anônimos. Mas, para a nossa tristeza, essa liberdade, também se tornou arma do diabo. A igreja multiplicou suas variantes de tal forma, que se desfigurou, perdendo sua identidade. Homens maus fizeram da igreja um balcão de negócios e palco de vaidades. Se Lutero voltasse a viver, teria muito trabalho; tantos são os descalabros. Os mesmos mercadores do passado parecem estar de volta, vendendo as coisas de Deus. E, o fazem com tamanha desfaçatez, que faria corar de vergonha os antigos vendedores de indulgências. Dízimos são exigidos dos fiéis, cobrados como obrigações; desafios são postos na ordem do dia; disputas; cargos e tantas outras posturas, sem qualquer paralelo com o espírito do Senhor. Uma doutrina de espíritos enganadores, chamada “teologia da prosperidade”, se esparrama no meio evangélico como uma praga. Qualquer cristão de boa consciência percebe que é uma obra do diabo, para envergonhar a cruz de Cristo, onde o divino está sendo misturado com o profano. E o Antigo Testamento é usado para justiçar boa parte desses desatinos.

Parece até que em vez de estarmos numa plantação de trigo, despontando joio que precisa ser arrancado; estamos sim numa plantação de joio, onde algumas sementes de trigo caíram aqui e acolá e vão sendo sufocadas. Não é à toa que o Senhor disse: “eis que vos envio como cordeiros ao meio de lobos”. Enganam-se os que pensam que os lobos estão fora das igrejas. Está mais do que na hora dos verdadeiros pastores, homens enviados de Deus para testificar Cristo e anunciarem o que haverá de vir, unirem os seus corações para a árdua tarefa que os aguarda. O tempo é chegado e os dias tornar-se-ão confusos, cheios de armadilhas, loucuras e incertezas. E, se ainda não nos demos as mãos, tempo virá em que falaremos uma só língua e marcharemos como um exército, revestido com as armaduras do Espírito. O Senhor desfará esta e outras mentiras, com o sopro de sua boca e a vergonha dos falsos profetas, ficará evidente diante de todos. Enquanto isso, que estejamos atentos, olhando para o Jesus, autor e consumador da fé. Deixemos de procurar apoio no Antigo Testamento, pois o Novo é o grande objetivo. No Antigo, interessa-nos apenas o que aponta para Cristo e para o seu Evangelho de Amor, de Misericórdia, de Perdão e Salvação. Fora disso, é caminhar no escuro.

“E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, veio em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, a qual era transitória, como não será de maior glória o ministério do Espírito?
Porque, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça. Porque também o que foi glorificado nesta parte não foi glorificado, por causa desta excelente glória. Porque, se o que era transitório foi para glória, muito mais é em glória o que permanece. Tendo, pois, tal esperança, usamos de muita ousadia no falar.
E não somos como Moisés, que punha um véu sobre a sua face, para que os filhos de Israel não olhassem firmemente para o fim daquilo que era transitório. Mas os seus sentidos foram endurecidos; porque até hoje o mesmo véu está por levantar na lição do velho testamento, o qual foi por Cristo abolido; e até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará. Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.” – (II Coríntios, 3:7-17)

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